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Depois do Não

Os desafios de quem vivenciou episódios de assédio no exercício do jornalismo


A presença das mulheres no mundo do trabalho atravessou distintas fases, da pré-história até a contemporaneidade. Com instrumentos de caça e coleta, elas saíam junto com os companheiros em busca de alimento. Carregando cestas, caminhavam ao lado dos homens para abastecer seus lares, se arriscavam entre matagais e lugares inóspitos. A resistência de Luzia pode ajudar a clarear esse percurso histórico. Considerado o esqueleto humano mais antigo encontrado no Brasil, o crânio da mulher de 25 anos deve ter 11,5 mil anos e sobreviveu ao incêndio no Museu Nacional.


Talvez Luzia carregasse cestas, caminhasse ao lado dos homens para abastecer seus lares. É possível que se arriscava entre matagais e lugares inóspitos. Sua resiliência é o símbolo da força da mulher. No período paleolítico, esse trabalho de coletar e caçar alimentos era feito igualmente entre homens e mulheres. Em uma família de nômades, geralmente as crianças eram poupadas da caça, por conta do seu tamanho e da fragilidade. Há relatos de que as mulheres, assim como os homens, também eram responsáveis por trazer “comida para mesa”, acomodadas entre pedras lascadas.


A responsabilidade delas também era com o cuidado com pessoas mais velhas, as crianças e a alimentação com a colheita de vegetais. Vulnerabilidade, fragilidade e ou sexo frágil são termos que não combinam com as mulheres, que desde sempre exerceram uma dupla jornada de trabalho.


Entre tecidos pesados, tintas frescas, com máquinas a todo vapor, a inserção feminina no mercado de trabalho se deu, inicialmente, com serviços em indústrias têxteis. Com luzes escuras, rostos desconfigurados e máquinas de costuras aparentes, o quadro Costureiras, de 1950, da artista Tarsila do Amaral - precursora do movimento antropofágico de 1920 - registra a cena de mulheres no ambiente industrial têxtil. As tensões do processo de industrialização brasileiro, são notadas em traços tortos e em pontuações triangulares, registrando a presença majoritária feminina nesses ambientes de trabalho.


A partir disso, a expansão do trabalho feminino, ao passar dos anos, se deu em setores como o agrícola e o domiciliar, em sua maioria. Com o anseio de estar presente no mercado de trabalho com o homem, a partir do século XX, nos anos 1970, o espectro social começa a mudar para as mulheres, de acordo com a pesquisa Mulher, trabalho e família: uma análise sobre a dupla jornada feminina e seus reflexos no âmbito familiar, de Ana Letícia de França e Édina Schimanski.


Desde o princípio, o mercado de trabalho é um ambiente que exercita a independência, visto que, por meio dele, existe a movimentação financeira e também o bem-estar pessoal. Com o passar dos anos e com do desenvolvimento do ser humano, a desigualdade no ambiente de trabalho passou a ser um fator importante para a reflexão social entre mulheres e homens.


Infográfico


Desde criança, até a vida adulta, as mulheres convivem com a desigualdade de gênero em diversos aspectos e cenas do cotidiano, como a imposição à fragilidade feminina, até a percepção de que a equidade pode ser distante. De acordo com a última pesquisa do Fórum Econômico Mundial, em 2017, denominada Global Gender Gap Report, o Brasil está localizado na 90ª posição no ranking de igualdade de gênero. Distante das primeiras posições no índice, a mulher brasileira enfrenta a dupla jornada de trabalho desde cedo, já que além dos compromissos assalariados, é ela que realiza os afazeres domésticos. Sobrecarregada, essa mulher faz parte da estimativa do Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em que, em média, a mulher trabalha 7,5 horas a mais que os homens.


Diante da rotina exaustiva, algumas delas ingressam no ensino superior e ocupam um percentual maior do que os homens. De acordo com Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 23% delas estão em aula ou já graduadas na faculdade, enquanto somente 20% dos homens ocupam essa mesma categoria.


Mesmo sendo maioria no ensino superior brasileiro, a formação ainda não garante a elas o mesmo salário que dos homens. Conforme também o IBGE, elas recebem em média 75% do salário destinado ao sexo masculino.


Como a mulher se tornou maioria no jornalismo


   Em 2018, a presença da mulher no jornalismo, em redações e assessorias, é superior ao número de homens. Mas nem sempre foi assim. No início, a função da mulher nos meios de comunicação era resumida à atender telefonemas. A conquista do espaço aconteceu aos poucos, com o passar do tempo.


Narcisa Amália de Campos é considerada uma das primeiras mulheres jornalistas no Brasil. Ela foi fundadora do jornal quinzenal Gazetinha, em 1884. Além dela, outras mulheres marcaram seus nomes na profissão, tais como Nísia Floresta e Elizabeth Cochran Seaman.


Sendo um pouco do reflexo dessas mulheres, o jornalismo atual é caracterizado pela sua maioria ser feminina. A pesquisa Perfil do Jornalista Brasileiro apontou que no ano de 2012, 64% eram mulheres, enquanto 36% homens, sendo elas caracterizadas como “brancas, solteiras, com até 30 anos”. Porém, nem sempre a realidade das mulheres em redações foi assim. O jornalista José Hamilton Ribeiro em seu livro Jornalistas 1937 a 1997: história da imprensa de São Paulo vista pelos que batalham laudas (terminais) câmeras e microfones, relata que no Brasil, em meados do século de 1930, as empresas jornalísticas eram feitas para homens: “nem banheiros femininos tinham”.


Ribeiro conta como funcionava a redação do Estadão: “à noite, quando fervia o trabalho jornalístico, as mulheres não eram aceitas nem na mesa telefônica. Havia mulheres como telefonistas, mas só durante o dia. À noite, um homem é que operava. Mulher podia ser telefonista, faxineira ou servia para fazer o café: circulava na área de serviço”.


A presença feminina em redações só começou a mudar em meados de 1980, no Brasil, quando as mulheres já ocupavam 36% dos quadros profissionais do país. O aumento da presença feminina no jornalismo nacional foi a partir da inserção do curso de Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo. Segundo dados do Ministério da Educação (MEC), no vestibular de 1998 ingressaram 14.969 mulheres e 10.015 homens nos cursos de graduação. Nessa época, as mulheres representavam quase 67% do mercado universitário nacional em jornalismo.


O maior jornal e também mais antigo do Paraná é a Gazeta do Povo, fundado em 1919. De acordo com artigo Marcas da história do jornalismo da Gazeta do Povo e o processo de feminização da redação, de 2016, a presença feminina nele se deu com a jornalista Juril de Plácido e Silva (1921-2012). Outro registro importante na redação desse mesmo jornal curitibano, foi com Carmen Lour, contratada em 1938 pelo jornal. Após Carmen, Rosy de Sá Cardoso torna-se a primeira mulher jornalista com carteira assinada do Paraná, além de ser primeira também a ser registrada no sindicato, em 1948, de acordo a pesquisa Percepção do Assédio Moral e Sexual Contra Mulheres Jornalistas, de Monique Ryba Portela.


foto mulheres no jornalismo


O que dizem as leis e como proceder em casos de assédio?

“Eu fui no banheiro chorar”. Essa frase se repete por muitas mulheres que vivenciaram o assédio no mercado de trabalho. A reação angustiante de passar por uma situação como essa, as deixam constrangidas, muitas vezes, sem chances de externalizar essas emoções em público.


O assédio sexual é definido por lei como o ato de “constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função”. (Lei nº 10.224, de 15 de maio de 2001, artigo nº 216-A ao Código Penal Brasileiro). Além disso, o Código Penal, em seu artigo 213, propõe pena de seis a dez anos de reclusão no caso do agressor constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar qualquer outro ato libidinoso.


Somente em 24 de setembro de 2018, a lei que pune a importunação sexual foi aprovada. O ato passou a ser infração de gravidade média, e o acusado pode ser condenado de um a cinco anos de prisão.


A advogada Andréa Fusculim explica que o assédio é definido no âmbito legislativo pela Lei 10224/2001 e que, apesar dos vários tipos de assédio, podemos dividi-los em dois gêneros básicos, o moral e o sexual. “Dentro destes dois gêneros temos a gradação dos mesmos, no qual, no caso do assédio sexual, pode ir desde um simples assobio até o estupro, e no assédio moral, desde o tratamento muito severo até o cometimento de um crime contra a honra”, explica.


Com relação ao assédio dentro do mercado de trabalho, Andréa pontua que não existem leis específicas de âmbito federal e que são utilizados artigos do Código Penal para a punição de condutas irregulares. A advogada afirma ainda que, em São Paulo, existe uma lei específica para a aplicação aos servidores públicos - Lei 12250/2006 - onde são vedadas ações de assédio moral no âmbito da administração pública estadual.


Olho advogada


Sobre a avaliação dos casos de assédio no mercado de trabalho ela afirma que dentro do mercado de trabalho, existe a grande preocupação com a inibição a esta prática, e quando há a comprovação nas ações judiciais, existe a punição através da condenação de pagamento de uma indenização por danos morais. A avaliação depende da gravidade da ofensa, do local onde ocorreu, quantas pessoas tiveram ciência, enfim vários aspectos são considerados para mensurar o dano”, conta.


Existem também, outros códigos que garantem a integridade de uma pessoa que sofreu com o assédio, tanto no ambiente de trabalho quanto fora. A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), por exemplo, estabelece no artigo 483, hipóteses de anulação do contrato por parte do empregado e a possibilidade de requerer a devida indenização quando for tratado pelo empregador ou por seus superiores hierárquicos com rigor excessivo, quando forem exigidos serviços superiores às suas forças, defesos por leis, contrários aos bons costumes, entre outras circunstâncias.


Ela explica ainda que para que seja realizada a representação criminal a denúncia do caso deve ser feita na delegacia do bairro onde a pessoa mora ou onde fica a empresa, e a ação de indenização deve ser ingressada na Justiça do Trabalho. Em casos de assédio moral coletivo - contra vários trabalhadores ou todos de uma empresa - é cabível uma representação junto ao Ministério Público do Trabalho.


Apesar disso, a advogada lembra que não existe uma obrigatoriedade por parte das empresas de oferecerem recursos para a vítima do assédio. Mas ressalta que “a importância de se fazer a denúncia visa coibir este tipo de prática dentro das empresas. Atualmente, as pessoas têm muito mais acesso à informação e mais meios de fazerem provas dos fatos delituosos nesta área. A punição aos assediadores é de suma importância para que esta prática seja erradicada do meio corporativo”.


Quando a vítima de assédio, tanto moral quanto sexual, quiser realizar a denúncia de seu caso ela deve, em primeiro lugar, reunir provas do que vem acontecendo, como por exemplo e-mails, filmagens, testemunhos e, assim, efetuar a representação criminal, aconselha Andrea. Ela finaliza lembrando que a pessoa que sofreu o assédio deve procurar a Polícia Civil para fazer a sua representação.


Em relação à conduta dos profissionais da imprensa, o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros explica no artigo 6º que é dever do jornalista não colocar em risco a integridade das fontes e dos profissionais com quem trabalha. Além disso, no artigo 14, o jornalista não deve ameaçar, intimidar ou praticar assédio moral ou sexual contra outro profissional, devendo denunciar tais práticas à comissão de ética competente.


arte assedio



Números: o assédio contra as jornalistas


Marie-France Hirigoyen, psiquiatra e psicanalista americana, explica em seu livro Assédio moral: a violência perversa no cotidiano, que o assédio é quando alguém é colocado em situação de inferioridade e submetida a situações hostis e degradantes durante um longo período. Essas violências acontecem em aspectos morais e sexuais, por superiores ou colegas em níveis hierárquicos similares.


Em meio às diversas notícias veiculadas diariamente nos portais e jornais impressos, escritas por horas, dias e até longas noites acompanhadas de uma xícara de café, poucos são os casos de assédios contra as profissionais jornalistas divulgados na mídia, mas isso não significa que eles não acontecem. Em Curitiba, de acordo com a pesquisa Percepção do Assédio Moral e Sexual Contra Mulheres Jornalistas, de Monique Ryba Portela, realizada em 2018, a violência acontece tanto por superiores, quanto por colegas de trabalho ou até mesmo por fontes.


O estudo, realizado com jornalistas da cidade, apontou que 40% das profissionais já foram vítimas de assédio de seus superiores. Acontecem meio aos corredores vazios, salas fechadas, reuniões, durante todo o expediente. Não existe um lugar ou horário específico para o assédio acontecer ou um lugar seguro para a vítima. Entre os comportamentos mais frequentes estão insinuações (34%), comentários indesejados sobre o vestuário e a aparência (28%), cantadas (28%) e piadas de natureza sexual (26%), que muitas vezes se dão mesmo em meio a um grande número de pessoas, segundo dados da pesquisa de Portela.


A mesma pesquisa aponta que o número de vítimas é ainda maior quando se trata do assédio por parte de colegas jornalistas. De acordo com o estudo, 66% das entrevistadas alegou já ter sofrido este tipo de violência por um funcionário da mesma empresa. Sobre o assédio cometido por fontes, a pesquisa apontou que 56% das jornalistas já foram vítimas de entrevistados.



A nível nacional, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e a Gênero e Número, mostraram que o assédio acontece contra as jornalistas nas rotinas de trabalho em vários estados do país. Das 477 mulheres que responderam a pesquisa e trabalham em 271 veículos diferentes, 73% já disseram ter escutado comentários ou piadas de natureza sexual durante o expediente. Ainda, 92% afirmaram que já ouviram piadas machistas em seu ambiente de trabalho.


Ao contrário do que muitos pensam, assédio não é brincadeira, e jamais deve ser tratado como uma. De acordo com o livro Gênero, patriarcado, violência, de Heleieth Saffioti, de 2004, a segregação das mulheres no mercado começou com o patriarcado, em 600 a.C, quando ela passou a ser vista apenas como objeto de satisfação sexual e não como uma força de trabalho.


Desde então, as vozes dos movimentos feministas têm lutado para que a exista equidade entre os gêneros, além de uma redução dessa violência. Organizações Não Governamentais (ONG’s), Sindicatos e coletivos de jornalistas trabalham em conjunto desde então para tentar garantir políticas públicas em favor da categoria.


No Paraná, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná (Sindijor) é um dos órgãos responsáveis por denunciar e dar apoio às vítimas. Em nota, o Sindijor afirma que realiza campanhas periódicas contra o assédio, especialmente pelas redes sociais e pelo site. Neste trabalho, o órgão relembra quais ações podem ser classificadas como assédio e divulga sua competência em aceitar denúncias desses casos.

A cláusula 32ª, do Estatuto do Sindjor - convencionado por meio de assembleia geral em dezembro de 2017 -, aponta que as empresas devem tomar alguns princípios para prevenir o assédio em ambiente de trabalho. Entre eles, estão: respeitar à diversidade, à cooperação e o trabalho em equipe; contribuir para que os empregados se conscientizem sobre a necessidade da construção de um ambiente saudável; e contribuir para a promoção de valores éticos legais.


Sobre possíveis campanhas em conjunto com as empresas de jornalismo, o Sindijor declarou que as últimas negociações para firmar um compromisso contra o assédio não foram aprovadas pelos diretores e coordenadores.


Aspas Mariana

Esse conselho é de Mariana Ceccon, 25 anos, para as jornalistas que são vítimas de assédio no mercado de trabalho. Em 2013, trabalhava como estagiária na rádio CBN, quando um comentarista se aproximou, puxou seu cabelo para o lado e disse em seu ouvido: “Estou morrendo de tesão em você e ainda vou te montar, você vai ver”.


Na época, com 20 anos, sentiu-se suja, envergonhada e não teve vontade de falar com ninguém sobre o que aconteceu. Esse posicionamento mudou logo depois que ouviu o depoimento de outras funcionárias da rádio, que também tinham sido vítimas de assédio do mesmo homem. Encorajada com a história de outras mulheres, levantou a cabeça na hora mais difícil, e tornou público tudo o que tinha ouvido da boca de Airton Cordeiro.


A denúncia de Mariana e a busca por justiça, fortalecida pelo depoimento de outras vítimas, também encorajou o projeto Depois do Não a produzir esta reportagem. A matéria começou a ser planejada no início de 2018, depois que algumas campanhas evidenciaram a necessidade de falar sobre o assédio. Em Curitiba, poucos eram os casos noticiados.


Uma jovem jornalista, ainda estagiária, foi vítima de assédio sexual e denunciou o agressor. Mais de cinco anos após o ocorrido, como estava a jovem jornalista? Ela teria se arrependido de denunciar e, principalmente, o que ela teria a dizer após tanto tempo do caso?


Era uma terça-feira nublada, comum na primavera curitibana, quando a equipe foi até a casa de Mariana. Ela concordou em falar sobre o caso, e dar detalhes sobre a história. Depois de algumas subidas, que eram quase intermináveis, chegamos ao destino: um apartamento em uma rua movimentada.


Mariana estava no estacionamento, em pé, aguardando a nossa chegada. Sua expressão denunciava o pesar de relembrar de um caso que marcou não só sua história, mas sua vida. Mesmo assim, ansiosa, nos mostrou o caminho até sua casa.


Em sua sala, organizada, as primeiras conversas para “quebrar o gelo” foram referentes às perguntas que faríamos a ela. A tranquilizamos, deixando-a à vontade em seu próprio espaço.


Mariana teve um “Depois do Não” difícil, tanto quanto as outras mulheres entrevistadas. A jovem, mesmo estagiária, denunciou o assédio sexual e moral, na empresa e na justiça.


Calma e um pouco ainda um pouco retraída, Mariana se apresentou. Com 25 anos e formada a quatro pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), iniciou seu primeiro estágio na área do Jornalismo aos 16 anos. Hoje, dois meses de volta a Curitiba, ela conta que ainda “é um pouco complicado de falar da CBN porque as pessoas costumam associar a marca, a empresa, às vezes com os funcionários”.


Airton Cordeiro, que já tinha sido vereador, deputado estadual e candidato à Prefeitura de Curitiba, trabalhava na CBN na época. Bacharel em Direito, exercia a profissão de radialista e comentava em boletins jornalísticos.


Quando Mariana começou o estágio, sentiu que o local era harmonioso e afirmou que sempre foi respeitada como profissional, pela maioria dos colegas. “Nunca me trataram como a ‘estagiária’”, apontou.


Foi durante esse período que começou a trabalhar com Airton Cordeiro, no estúdio da emissora. Mariana contou que tinha muita admiração e respeito pelo profissional, que tinha uma história na imprensa paranaense. Nos primeiros dias, chegou a tratar o homem da mesma maneiro como trata um tio avô. Atendia os telefones, anexava e imprimia os arquivos que Cordeiro lhe pedia.


Os problemas começaram no final de junho, quando o comentarista passou a fazer piadas sobre o Caso Tayná. “Quer dizer que ninguém quis fazer sexo com essa tal de Tayná?”, reproduziu Mariana, lembrando que todos sempre forçavam um sorriso amarelo.


Em julho, um deficiente visual telefonou para a rádio e fez perguntas sobre como é o estúdio, etc. Com uma expressão tensa Mariana contou para o Depois do Não que assim que desligou o telefone, ouviu o comentarista se referir às suas partes íntimas sem pudor algum e, todos os jornalistas e profissionais que estava no estúdio ouviram em alto e bom som. Ela ainda recorda que respirou fundo, contou até três e só devolveu a frase em tom de brincadeira.


Alguns dias depois, Airton viajaria para a Disney com sua mulher e filhos. O comentarista se despedia de todos na rádio, mas continuava com as baixarias e piadas horríveis com os nomes das entrevistadas. Durante o programa, Cordeiro se aproximou da mesa de Mariana, como quem queria olhar alguma coisa no monitor da jovem. O homem estava atrás da cadeira, quando tirou os cabelos de Mariana dos ombros disse no ouvido da jovem:


Aspas Mariana


Mariana não teve reação. Se sentiu desprezada. Foi “tratada como um animal”. A jovem saiu do local e foi ao banheiro, não contendo suas lágrimas. Ao Depois do Não, a jovem falou que sempre imaginou que se algo assim acontecesse, ela não hesitaria em se defender. Não teve forças para responder. Sentiu-se humilhada, um “lixo humano”, fraca. “Você tem vontade de se esconder, e se sente suja. Não quer falar para ninguém”, pontuou a vítima.


Naquela sexta-feira, Mariana foi embora com umas das sensações mais horríveis que já sentiu. Não queria ver o namorado, nem os pais. Também pensou que, por mais que amasse o trabalho na rádio, não queria voltar para lá. Na segunda-feira, insistiu e retornou à CBN, onde descobriu que outras mulheres também tinham sido assediadas. Durante uma conversa, a estagiária percebeu que Airton tinha dito coisas piores para outras funcionárias. Encojarada, decidiu falar sobre o caso, para dar um basta nas agressões que o comentarista cometia.


A jovem foi aos superiores e contou tudo o que tinha ouvido, inclusive a última situação, no estúdio. O caso foi repassado aos diretores da rádio, que logo souberam o que estava acontecendo no local. Mariana recebeu apoio dos colegas diretos e foi se acalmando, aceitando a situação aos poucos. Um dos diretores chegou a pedir desculpas à jovem, e garantiu que levaria o caso ao “alto escalão”. Nessa altura, a estagiária se preocupava com as intimidações, já que Airton Cordeiro era amigo dos donos da CBN.


Mesmo com todos os medos, ela acreditou que faria a diferença. Mariana pensou em todas as funcionárias e ex-funcionárias que ele teria assediado. Passadas de mão, intimidações, ofertas em dinheiro para levá-las em motéis. A jovem depositou todas as suas esperanças de que o caso seria resolvido ali. Porém, a história foi omitida pela direção da rádio CBN.


Mariana foi deixada de lado pelos superiores. Mas o caso, que se tornou assunto dentro da rádio, vazou e tomou proporções inacreditáveis. Um dia, pela manhã, a jovem viu a internet explodir em cobranças, piadas de mau gosto e humilhações. Ela, que já tinha sido vítima dentro da empresa, sofria assédio moral nas redes sociais. “O mundo é realmente feito de um machismo nojento”, pontuou.


Quase todos os dias, a jovem abria o Twitter e lia comentários como “na capa da playboy de julho, a estagiária que revelou Airton Cordeiro revela tudo para você”. Para a vítima, essas frases todas foram piores do que o próprio ato de Cordeiro.


Como a situação chegou a um nível crítico, o jornalista José Wille marcou uma reunião com os superiores e outros profissionais da empresa. O encontro foi fechado e Mariana só ficou sabendo que as gravações com os relatos de assédio foram mostradas. Como a rádio CBN optou por não tomar decisões, José Wille se demitiu. A jovem teve um sentimento de culpa, por mais que não tivesse controle de onde a situação poderia chegar. Pensou até que se omitisse o caso, talvez fosse diferente.


As atenções se voltaram para a rádio. Os próprios funcionários, cientes dos assédios, queriam uma palavra dos líderes da empresa e um posicionamento. Marcos Tosi, que também é jornalista, conversou com todas as vítimas e ouviu os depoimentos. Porém, quando foi descoberto, o profissional teria levado um “gelo” da direção e também optou por sair da rádio.


No dia 5 de agosto,Tosi anunciou a demissão na manhã e, em meio ao caos, Álvaro Borba também não pensou duas vezes: saiu e não voltou mais. Na época, Mariana ficou agradecida com a atitude de Wille, mas não teve contato com o profissional dentro da empresa. Quanto ao Álvaro e ao Tosi, a jovem apontou que os dois foram figuras fundamentais para que ela ainda tivesse esperança que o machismo não era parte de todos os homens. As conversas, orientações e sensibilidades dos dois trouxeram a ideia de superação ao “depois do não” de Mariana.


Aspas Mariana


Com as demissões de três âncoras, e sem qualquer nota oficial, os funcionários da rádio entraram em greve. Nesse contexto, a direção enfim emitiu um posicionamento, mas ainda havia informações desencontradas sobre o futuro de Airton Cordeiro.


Na semana seguinte, Mariana não foi trabalhar na segunda-feira. Na terça, levantou a cabeça e encarou a rotina novamente. Não porque sentia que estava devendo alguma coisa para a empresa, mas sim porque devia para os colegas que estavam produzindo o jornal em quatro pessoas. Eram duas horas e trinta minutos de programa. No seu “depois do não”, ela demonstrou profissionalismo e não titubeou. Repetia para si mesmo que era hora de tornar pública a história por completo. Mesmo amedrontada, encarou as coisas de frente e assumiu de uma vez que foi assediada durante a rotina de trabalho.


Mariana, mesmo jovem, chegou a conclusão de que precisava passar a lição de que assédio sexual não é sobre sexo, mas sim sobre poder. Em uma carta, escrita e divulgada nas suas redes sociais, a jovem afirmou que não queria se tornar uma bandeira do feminismo, mas sim levantar o problema do assédio e do machismo.


Para a equipe do Depois do Não, Mariana contou que processou a rádio na época, na intenção de que a empresa denunciasse Airton Cordeiro. Porém, nunca aconteceu. No Ministério Público, a jovem assinou um acordo em que a CBN admitiu o caso de assédio e cumpriu com as reivindicações da justiça. Ceccon recebeu o valor da bolsa de estágios que ganharia em dois anos na empresa, mas não foi o que mais importou para a jovem. “Mesmo tendo recebido uma compensação por danos morais na Justiça do Trabalho, o melhor acontecimento foi a rádio ter assumido o assédio que aconteceu dentro da rádio. Eu precisava daquilo como mulher e jornalista”, declarou.


No processo criminal, Airton Cordeiro foi acionado para algumas audiências, onde assumiu um acordo com o Ministério Público do Paraná (MPPR). Por conta da sua ficha limpa, o comentarista foi indiciado e pagou R$ 2 mil em remédios para uma instituição de caridade.


O processo foi encerrado, mas o próprio agressor relembrava o caso e dizia que tinha vencido na justiça. Na época, Airton também era comentarista na Rádio Transamérica, e falava aos ouvintes que não tinha que ser julgado mais por ter cometido o assédio, e se vangloriava por ter um papel que comprovava o pagamento do dinheiro à instituição de caridade. Quando ouviu a declaração, Mariana enviou um pedido de resposta à rádio, que ignorou a jovem.


Com o término do processo, e cinco anos após o caso, Ceccon falou sobre como lidou com todas as consequências. Em nível profissional, ela acredita que a repercussão do caso na mídia não tenha atrapalhado tanto sua carreira, até porque foi contratada poucos meses depois pela Gazeta do Povo e RBS TV. Porém, quanto à atuação da jornalista no mercado de trabalho, Ceccon diz ter criado uma consciência maior das situações e que agora percebe o machismo em várias ocasiões.


Mariana comparou a mulher no jornalismo com um copo vazio, que vai se enchendo aos poucos. Para ela, a repórter, produtora, ou qualquer outra função no meio comunicativo, vai sofrendo assédios e convivendo com o machismo, até que esse copo transborda. No seu caso, transbordou cedo.


Para as outras mulheres, que passam ou ainda vão passar por essas situações, cada caso é um caso. Por mais que muitos digam que é preciso denunciar todo tipo de assédio, Mariana aconselha que cada uma pense em sua situação. Em seguida, ela aponta que é necessário “se blindar”, com amigos, advogados e pessoas que estejam ao seu lado, e que te defendam. “Se estiver cercada das pessoas certas, tome coragem e denuncie”.


Assim como Mariana, as mulheres não precisam passar por isso sozinhas. Além da jovem, outras profissionais também contaram o seu Depois do Não para a nossa equipe de reportagem.


O Depois do Não entrou em contato com outros envolvidos no caso que não quiseram se pronunciar por conta da situação vivenciada na época.




Jornalistas assediadas: saiba o que sugerem Depois do Não


DepoisdoNão


Durante os meses de junho e outubro de 2018, a equipe entrou em contato com mulheres jornalistas que aceitassem conversar sobre situações em que elas vivenciaram o assédio no mercado de trabalho. Luta, dor, e superação marcaram o “depois do não” dessas mulheres, que acreditam em um mundo com menos machismo e desigualdade entre gêneros.


As jornalistas contam seus casos e encorajam outras mulheres a combater o assédio.


De modo geral, as entrevistas com as jornalistas embasam as pesquisas de Monique Ryba Portela, na monografia Percepção do Assédio Moral e Sexual Contra Mulheres Jornalistas em Curitiba. Os casos retratados nesta reportagem incluem as três categorias de assédio citadas pela autora, que são: assédio por superiores, por colegas de trabalho e fontes ou entrevistados.


J. R.


J. R., 43 anos, jornalista. Em sua casa localizada no tranquilo bairro Abranches, em frente à uma praça, ela nos recebe para contar o seu depois do não. A experiência de J. na área da imprensa começou em 1997, quando iniciou seus trabalho sem uma redação de jornal diário.


Não se passaram muitos anos, e a jornalista passou a trabalhar com jornalismo político. O tema “assédio” sempre foi comentado na jornada de trabalho de J. Sua primeira dica recebida como jornalista profissional foi um alerta sobre assédio, principalmente com fontes. “Para o repórter que está na rua, é mais complicado ainda, porque ela tem que cuidar quando vai entrevistar. Então você tem que estar na defensiva o tempo todo. É triste falar isso ”, conta.


Algum tempo depois, J. passou a trabalhar em uma redação. Era um dia exaustivo de trabalho que lhe rendeu algumas horas a mais no trabalho, seu chefe na época pediu para entrevistar uma fonte, na qual ainda não tinha o número de telefone, foi então que ela pediu o contato para um colega de trabalho, que já tinha fama de ser um tanto quanto inconveniente.


Logo depois que J. agradeceu pela ajuda, o funcionário, com um tom de “brincadeira” disse que ela “não deveria lhe agradecer, mas sim, abaixar a calcinha para ele”. No calor do momento, a jornalista, na época ainda muito nova, conseguiu se posicionar de uma forma irônica, dizendo que mesmo que ela abaixasse a calcinha, ele não iria alcançá-la, caçoando da pouca altura que o funcionário tinha. Sua reação foi instantânea. Momentos depois, J. repensou no que aconteceu, e nas palavras duras que aquele funcionário tinha dito.


Depois, J. soube por outras pessoas da redação, que o agressor fazia comentários desnecessários com outros funcionários, principalmente quando eram mulheres. “Com quem ele era chefe, isso era muito comum, dele chamar de burra, enfim, outras coisas absurdas”. Dias depois do assédio, a jornalista percebeu que o agressor passou a respeitá-la, assim como outras repórteres que também o respondiam. O depois do não de J. foi contar o que aconteceu para o seu superior e pedir para que isso nunca mais acontecesse.


A jornalista, ao longo de sua carreira, não apenas sofreu com o assédio dentro do ambiente de trabalho, como também foi vítima de suas próprias fontes. J. cita um momento de sua carreira em que trabalhava como repórter da editoria de política. Segundo ela, no momento em que estava marcando uma entrevista com um político, ele preferiu que fosse realizada em sua própria residência. “Fiquei com medo, levei o fotógrafo junto e disse que ele não sairia dali enquanto eu estivesse entrevistando”, explica a jornalista. Quando chegaram ao local, J. se deparou com a fonte vestindo apenas um roupão. Ao contar essa história, ela abre um questionamento sobre o que poderia ter acontecido caso o fotógrafo não estivesse presente no local.


Hoje em dia, J. não se sente mais afetada emocionalmente em relação aos acontecimentos, pelo tempo que passou. Porém, o assédio público foi um modo de empoderamento até hoje, visto que todos os colegas de redação ao recordar do caso, lembram de seu posicionamento e resposta. “A história rola nas redações como um momento que a gente não pode aceitar essas coisas de forma nenhuma”.


Por fim, J. R. se sente bem pela chefia ter compreendido sua situação e tomado as devidas providências, mesmo que na época não se falasse muito sobre o assunto. 




J.C

Recém-formada, e ansiosa por uma vaga na profissão que sempre sonhou em praticar, J.C saiu às ruas em busca de uma oportunidade. Com menos de 20 anos, sempre teve atitude e ambição, mas foi naquela época que teve a certeza de que essas características fariam a diferença na sua vida.


Pouco tempo após dar início à busca por um emprego, foi chamada para uma entrevista, em um grande jornal. Com os pés no chão, não criou grandes expectativas na oportunidade, que mesmo única, parecia demais para uma recém-formada. Passou a acreditar realmente na sua capacidade quando recebeu a ligação do seu futuro chefe, que lhe convidou para uma reunião. Arrumou o cabelo, levantou a cabeça e se lembrou da vez que tinha dito para si mesma que conseguiria fazer o que sempre quis.


Foi contratada. Em menos de uma hora, recebeu a função de repórter e uma lista de obrigações que deveria cumprir.


Na semana seguinte, o expediente começou. Haviam muitos homens e raras eram as mulheres que trabalhavam no jornal. Ela não estranhou, afinal, naquela época, “elas não tinham cargos importantes, faziam o cafézinho ou atendiam na recepção”.


Única mulher no setor, o tempo foi passando e algumas “brincadeiras” começaram a chamar atenção. Ingênua, ela realmente acreditava que algumas palavras ditas pelos homens eram apenas elogios, ou comentários inocentes.


As indiretas, que antes falavam sobre seu cabelo liso, penteado, agora a deixavam sem graça. Esboçava um sorriso amarelo, rouquidão e chegava a tremer quando escutava um esboço da voz dos homens.


“Nossa, olha esse seu decote”, disse um deles, que não disfarçou o olhar ao encarar a profissional. “Você veio com essa blusa para me provocar?”, questionou outro, certo de que a resposta seria sim.


A jovem não acreditava nas coisas que escutava. Trabalhar já não era mais a mesma coisa, a paixão pelo jornalismo diminuía a cada comentário machista que escutava. A situação se tornava cada vez mais pesada. Envergonhada, começou a se sentir culpada por provocar todos aqueles homens. Passou a procurar coisas que chamavam atenção nas suas roupas, até que entendeu.


Não importa o quanto o decote fosse fechado, o quanto a saia fosse longa, e até mesmo com o cabelo desarrumado, nada mudava. Enfim, ela entendeu que continuaria sendo assediada simplesmente por ser mulher. Ao longo do tempo, a situação piorou. Esconder-se já não funcionava e era perseguida pela maioria dos homens da empresa, incluindo os casados.


Convocada para uma reunião, achou que teria ali uma oportunidade para denunciar o que estava passando na empresa. Enganou-se mais uma vez. A sala estava com as luzes acesas, os sons de fora diminuíram à medida em que a fresta da porta era fechada. Assim que encostou a maçaneta no trinco, sentiu algo chegando perto e começou a suar frio. Era pesado e a pressionava contra a parede, como se estivesse sendo empurrada.


Paralisada, demorou para entender o que acontecia naquela sala. Foi presa pela força do homem, que chegava cada vez mais perto. “Você não vai dar bola para mim?”, disse pausadamente, com a boca próxima à orelha de J.C. Os sons daquela frase ecoaram na vítima, que mesmo atordoada, reagiu. Arranjou um jeito de sair por baixo das mãos do agressor e fugiu.


Assustada e hostilizada com a situação, a jovem jornalista não foi à diretoria do local denunciar. “Ali eu era a mais fraca, era a única mulher do meu setor e não teria como alguém acreditar em mim”, alegou.


Cada vez mais distante dos profissionais e do trabalho, isolou-se para se preservar. Não lhe fez falta, mas o jornalismo não é feito apenas por uma pessoa e, dessa forma, ela precisava estar em sintonia com o resto da equipe. Pelos assédios e por outras questões, pediu demissão da empresa.


J.C não conseguiu levar as denúncias até a direção da empresa, ou ao Ministério Público do Trabalho (MPT). Após a entrevista, ela agradeceu a oportunidade e disse que, se fosse naquela época, não teria forças para contar tudo pelo que passou.


“É uma coisa horrível. Ter envergonha e você não sabe do porquê acontece. Me questiono até hoje, poderia ter feito várias coisas, contado, denunciado, pedido ajuda, mas não consegui. Hoje peço para que todas denunciem, mas não sei se teria coragem. Na teoria é uma coisa, na prática, quando você passa por uma situação dessas, é outra totalmente diferente”, declarou J.C.